Futuro adiado
(George Vidor) – O Globo
O faturamento da indústria cresce, mas a
produção, não. A diferença poderia ser explicada por altas de preços, o que não
é o caso. A revenda de produtos importados seria uma outra resposta. No
entanto, as estatísticas mostram que as importações pararam de crescer. Então,
o mais provável é que a indústria esteja desovando grandes estoques, formados
diante da perspectiva de uma explosão de demanda no Brasil.
O consumo das família continua
crescendo, mas agora em rimo moderado. A avidez pelo consumo diminuiu porque o
apetite foi parcialmente saciado. E as contas a pagar se acumularam.
Como
ninguém sabe o tamanho dos estoques remanescentes nos depósitos das indústrias
e armazéns do comércio, fica a dúvida sobre o momento em que a produção
industrial começará a se recuperar, contribuindo para que a expansão do Produto
Interno Bruto (PIB) passe de minguados 2% ao ano para a faixa de 4% a 4,5%.
Esperava-se que isso viesse ocorrer já neste começo de segundo semestre, mas os
dados sobre o desempenho da indústria não têm sido elucidativos, mantendo no ar
a dúvida sobre a trajetória da economia brasileira. A aposta agora passou para
o quarto trimestre de 2012, e assim o ambiente de angústia vai se prolongando.
Parece que o futuro não chega...
Com um investimento de alguns bilhões de
dólares no Brasil, o BG Group (antiga British Gas) espera chegar a 2020 como a
segunda maior companhia de petróleo e gás no país, com uma produção equivalente
a 600 mil barris diários, só perdendo para a Petrobras, seu principal parceiro
no país. O BG Group tem participações que variam de 25% a 40% em seis blocos na
Bacia de Santos, entre os quais o de Lula e Cernambi, cujas reservas na camada
do pré-sal são estimadas entre 6 e 11 bilhões de barris equivalentes de óleo.
Lula já produz cerca de 100 mil barris por dia, garantindo à BG Brasil uma
considerável receita, pois sua fatia é de 25% nesse campo.
O BG Group ainda tem cerca de 70% de
suas atividades ligadas à exploração e produção de gás, especialmente no Egito
e no Reino Unido. O pré-sal no Brasil mudará esse quadro, ainda que também a
produção de gás natural prevista para esses campos seja considerável. De
qualquer forma, o BG Group está agora focado no petróleo, tanto assim que
vendeu sua participação de 60% na Comgás (distribuidora de gás canalizado em
São Paulo) para a Cosan, embora mantenha quase 10% no gasoduto Bolívia-Brasil.
O investimento na Bacia de Campos é
enorme, a exemplo do aluguel de algumas sondas de perfuração, que pode custar
US$ 1 milhão por dia. E um poço lá, em condições adversas (distância de até 300
quilômetros da costa do Rio ou de São Paulo, lâmina d"água de dois mil
metros, reservatórios situados sete mil metros abaixo da superfície, obrigando
os equipamentos a vencer a pressão do oceano, rochas de vários tipos e ainda
atravessar dois mil metros de uma camada gelatinosa de sal), chega a levar dois
meses sendo perfurado. Para os campos já considerados comerciais, vêm sendo
encomendadas treze plataformas do tipo FPSO (construídas geralmente sobre
cascos de antigos navios petroleiros), que podem custar até US$ 2 bilhões, cada
uma.
Diante de tal desafio, o BG Group se
transformará no maior investidor estrangeiro privado no Brasil, razão pela qual
decidiu transferir o seu Centro Global de Tecnologia para a Ilha do Fundão, no
Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo como
vizinho o Cenpes da parceira Petrobras. As obras do centro começam agora em
setembro, com um projeto que se propõe a ser exemplo de sustentabilidade e
baixo impacto ambiental. O centro já existe formalmente e funciona por enquanto
na sede da BG Brasil, na Avenida Chile, a mesma da sede da Petrobras. Os
cientistas serão gestores de onze institutos de pesquisas, todos ancorados em
laboratórios de excelência nas universidades brasileiras. O centro desembolsará
US$ 100 milhões no programa que financia cursos de futuros mestres e doutores
brasileiros no exterior, com a condição de que cada bolsista desenvolva algum
projeto inovador para a indústria. Estrangeiros que patentearem inovações no
Brasil também serão financiados pelo centro de pesquisas.
As dragas que estão abrindo o canal, em
forma de um L caído, no Açu, para possibilitar a instalação do estaleiro da
OSX, de um terminal de contêineres e de vários acessos marítimos a empresas que
estão se instalando no distrito industrial de São João da Barra, virou a curva.
Ou seja, avançaram do mar para o interior do continente 2.800 metros, abrindo a
primeiro trecho, com 200 metros de largura, e agora escavam o segundo trecho,
paralelo à praia, que terá mais de três mil metros. Quando ficar pronto, no ano
que vem, o canal terá trezentos metros de largura e 14 metros de profundidade
(até o momento está com oito metros).
O governo federal vinha privilegiando
investimentos em ferrovias que servirão como indutoras de desenvolvimento no
futuro, mas percebeu que precisa dar atenção aos gargalos das malhas já
existentes. Assim, desta vez, o projeto do ferroanel de São Paulo, que evitará
a passagem de trens de carga pelo meio da cidade (o que, aliás, será impossível
a partir de 2017, devido ao tráfego de trens de passageiros), sairá, enfim, do
papel.
As empresas ALL e MRS estão investindo
na ampliação dos acessos ao porto de Santos (inclusive com um sistema de
descida da Serra do Mar, conhecido como cremalheira, mais moderno do que o
existente há décadas). Será inevitável que ambas se envolvam mais no transporte
de contêineres, mesmo em distâncias de 200 quilômetros.